Capítulo 2
O que está acontecendo com você
No site, os exemplos alternam entre ele e ela. Aqui, como no livro inteiro, o texto fala com a leitora no feminino e chama o ex de ele, como a Katry avisa no prefácio. Se no seu caso for diferente, troque o gênero na leitura, porque o mecanismo é o mesmo.
Vou começar com uma pergunta que quase todo mundo que senta na minha frente acaba fazendo, sempre com um pouco de vergonha:
"É normal doer no corpo?"
É. E não é da sua cabeça.
Em 2003, Naomi Eisenberger e Matthew Lieberman, da Universidade da Califórnia, colocaram pessoas dentro de um aparelho de ressonância magnética e as fizeram passar por uma situação simples de exclusão social. Um joguinho em que os outros participantes paravam de passar a bola para elas. Bobagem, em tese.
O cérebro delas não achou bobagem. Acenderam regiões que também processam dor física.
Oito anos depois, Ethan Kross e a equipe dele foram mais longe. Pediram a pessoas que tinham acabado de ser rejeitadas em um relacionamento que olhassem para uma foto do ex enquanto pensavam na separação. As mesmas áreas que respondem a uma queimadura ou a um corte se ativaram.
Repita isso comigo: quando você diz que está doendo, você não está usando metáfora.
Por isso o nó na garganta. Por isso o peso no peito. Por isso a sensação física, localizável, de que alguma coisa foi arrancada.
A parte que ninguém te conta
Tem outro achado, e esse costuma mudar a cara das pessoas quando eu conto.
A antropóloga Helen Fisher passou anos estudando o cérebro apaixonado. Em 2010, ela e a equipe examinaram pessoas que tinham sido rejeitadas havia pouco tempo e que ainda estavam intensamente apaixonadas. Enquanto olhavam fotos do ex, acenderam a área tegmental ventral e o núcleo accumbens.
São as mesmas regiões que se ativam na fissura por cocaína.
Não é força de expressão. Do ponto de vista do seu circuito de recompensa, você está em abstinência. Ele era a sua fonte diária de uma substância, e a fonte fechou de um dia para o outro, sem desmame.
Veja o que isso explica:
Por que você abre o celular sem ter decidido abrir. Por que você pensa mais nele justamente quando está tentando não pensar. Por que uma mensagem, mesmo uma mensagem ruim, te dá alívio imediato e depois te deixa pior. Por que você já sabe racionalmente que aquilo te fazia mal e mesmo assim o corpo pede.
Nada disso é falta de caráter. É neuroquímica de abstinência.
Por que logo ele
Agora eu preciso te apresentar a outra metade da explicação. É a metade que vai te dizer o que fazer.
A neurociência mostra o que está acontecendo dentro de você. A análise do comportamento mostra o que está acontecendo entre você e o mundo. As duas são verdadeiras ao mesmo tempo, mas só a segunda aponta para alguma coisa que você consegue mudar, porque você não mexe no seu núcleo accumbens. Você mexe no seu ambiente.
Então me responda uma coisa.
Você já reparou que as relações mais difíceis de largar quase nunca são as boas?
Não é impressão sua, e não é masoquismo. Tem um mecanismo por trás, e ele foi descrito por B. F. Skinner em laboratório muito antes de alguém pensar em aplicar isso a relacionamento.
Quando um comportamento é recompensado todas as vezes, ele se instala rápido e some rápido quando a recompensa acaba. Mas quando a recompensa vem de forma imprevisível, às vezes sim, às vezes não, sem padrão nenhum, o comportamento fica muito mais forte e resiste muito mais a desaparecer.
Isso se chama reforçamento intermitente. É o mesmo esquema que faz uma máquina caça-níquel funcionar, e é o motivo de ninguém ficar viciado em um interruptor de luz.
Agora pense na relação que acabou.
Sumia por três dias e depois mandava a mensagem mais linda do mundo. Era frio a semana inteira e no domingo virava outra pessoa. Você nunca sabia qual versão ia aparecer, e foi exatamente por isso que você não conseguiu soltar.
Carinho constante acalma. Carinho imprevisível prende.
É por isso que tanta gente sai de uma relação morna sem grande sofrimento e passa dois anos presa a uma relação que, no papel, era muito pior. Não tem a ver com o quanto você era amada. Tem a ver com o esquema em que o amor era entregue.
Deixe isso assentar, porque muda a pergunta que você anda se fazendo.
A pergunta não é "por que eu ainda sinto tanta falta de alguém que me fez isso?".
A pergunta é "por que o meu comportamento foi tão bem treinado?".
E comportamento treinado se desmonta. Não com força de vontade, mas com método.
O seu sono não sumiu por acaso
Se você está dormindo demais ou não está dormindo nada, se perdeu a fome ou está comendo sem parar, também tem explicação.
O psicólogo David Sbarra estuda há décadas o que uma separação faz com o corpo. O que ele e outros pesquisadores descrevem é uma desregulação do sistema de apego. A presença de alguém com quem temos vínculo funciona como um regulador externo do nosso ritmo: sono, apetite, frequência cardíaca, temperatura. Quando essa presença some, o organismo leva um tempo para reaprender a se regular sozinho.
Você não perdeu o sono. O seu corpo perdeu a referência que usava para dormir.
Ele reaprende. Leva algumas semanas.
O capítulo continua no livro
A partir daqui vêm as cinco armadilhas com nome e sobrenome, a ferramenta ABC para usar na hora em que bate, e o fechamento do capítulo. Depois dele ainda tem treze capítulos, o protocolo de sete dias e a caixa de ferramentas.
109 páginas em PDF, acesso imediato, sete dias para pedir o dinheiro de volta.
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